Às vezes relativizamos ou negamos nossos desejos mais essenciais,
mentimos para nós mesmos tentando transparecer e talvez nos convencer de que
tanto faz, que sejam nossas necessidades alcançadas ou não, estaremos
tranqüilos, tudo estará bem, não nos frustraremos nem nos desesperaremos. Esse
é sem dúvida um mecanismo de defesa, de proteção, e eu reflito, do que nos
protegemos?
Protegemo-nos de nossos próprios abismos emocionais, pois tememos
experimentar o quão profundo eles podem ser; tememos perder a fé, já que o
nosso espírito é capaz de perceber que sem ela não há esperança; tememos que
sentimentos negativos contradigam o nosso discurso de filhos de um Deus bom e
misericordioso que caminha conosco, que ouve as nossas orações e atende-nos na
nossa necessidade; tememos nos decepcionar com a “figura” que fizemos dele e
ficarmos sem saída.
E esse instinto de auto-proteção não seria por si mesmo ausência de fé,
de confiança, de intimidade com o Pai? Não seria essa nossa necessidade de
manter a situação sob controle o indício de que não nos entregamos totalmente,
não nos submetemos aos seus propósitos temendo intimamente que ele não esteja
tão ao nosso favor, tão interessado e comprometido com a nossa felicidade
quanto nós mesmos? Não estamos sendo insubmissos à sua vontade e tentando débil
e ineficazmente disfarçar?
Quantas pessoas desejam se casar, constituir um lar, uma família, mas
frustrados com a não consolidação de seu desejo no tempo esperado trazem um
discurso pronto sobre os benefícios da solteirice, as agruras do casamento e
etc. Ainda que não consigam enganar nem as pessoas ao redor, repetem suas
contradições tentando camuflar a dor de estarem sozinhos, de não terem
encontrado alguém que se comprometesse consigo tão profundamente, muitas vezes
até exageram e afastam desastrosamente possíveis pretendentes?
Quantas pessoas não desejam experimentar a maternidade ou paternidade e
mediante dificuldades e obstáculos adotam um discurso de indiferença ou negação
embora a lacuna emocional só cresça e a negação não seja capaz de minimizar a
ferida, ainda que externamente confisque insuficientemente o aspecto de
sofrimento?
Nossa humanidade é sem dúvida complexa, somos inclinados à contradição e
ao conflito; fracos, falhos, deficientes espiritualmente, mas esse Deus grande
que nos ama profundamente e nos enxerga além das palavras, da aparência, da
confusão, da nossa própria compreensão, deseja relacionar-se conosco da maneira
mais íntima, aberta e sincera possível e essa sinceridade é o princípio da
confiança e da fé.
Precisamos ser sinceros na nossa comunicação com ele, até na nossa
comunicação com os outros (em que seu nome seria glorificado, então?); sinceros
sobre os nossos desejos, sonhos, expectativas, medos, frustrações; precisamos
ser sinceros até quando os nossos sentimentos em relação a ele não são os mais
esperados ou desejados, pois entende nossas limitações e nos ama assim mesmo.
Dispamo-nos das capas de proteção, dos discursos prontos que negam o que
está na nossa alma, confiemos a ele nossas inquietações e necessidades e
cheguemo-nos a ele com confiança, crentes no seu amor de pai e na sua sabedoria
de Deus, submetamo-nos, pois seu amor nunca muda e sua misericórdia nunca
cessa, ele fará o que for realmente melhor para nós e nele seremos mais que
vencedores.
Luciana Soares

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